A MELÓDICA PERCUSSIVA DA CUÍCA EXPANDIDA

As experiências realizadas durante a execução do projeto Cuíca Expandida foram feitas em grande medida tendo como base teórica o trabalho  Melódica Percussiva, de Luiz D`Anunciação. Publicado em 2008, Melódica Percussiva consiste em um método paradidático que, baseado nos parâmetros da notação musical tradicional, formaliza um sistema notacional destinado a traduzir toda a riqueza de nuances que caracteriza os instrumentos de percussão com som de altura indeterminada, categoria instrumental que o autor explicita ao informar que a percussão se divide em duas grandes famílias de instrumentos musicais:

Em uma, estão aqueles que produzem o som de altura determinada, conforme o paradigma da tonalidade (o xilofone, os tímpanos, o vibrafone, o glockenspiel a baquetas, a marimba e todos os demais que obedeçam ao mesmo processo de afinação). Na outra, estão agrupados os instrumentos que não produzem o som em conformidade com o mesmo princípio de afinação, denominados instrumentos com som de altura indeterminada, que eu chamo instrumentos com entonação tímbrica não alinhada ao sistema da tonalidade (…). Esta segunda família soma o grupo mais numeroso e menos compreendido em sua função na música, congregando uma elástica e heterogênea diversidade de formas físicas, tais como os atabaques, o berimbau, o reco-reco, a cuíca, o camisão, o pandeirão sem soalhas ou tinideira do bumba-meu-boi do Maranhão, a puíta, o triângulo, o tamburo basco, os pratos, o pandeiro estilo brasileiro (pandeiro de samba) e muito mais, todos produzindo som com altura indeterminada e, por esta condição acústica, suas notas musicais não podem e não devem ser identificadas com nomenclaturas do sistema tonal: Ré, Fá, Dó, Sol etc. (D`ANUNCIAÇÃO, 2008, p. 11).

Ainda, nas palavras autor:

Estudando a diversificação de nuances tímbricas decorrente de procedimentos de execução nestes instrumentos, encontrei razões para criar a expressão melódica percussiva, de função análoga ao que se chama melodia no campo tradicional da tonalidade, (…) porque são sucessões de alturas produzidas por nuances sutis, decorrentes do modo de articular o som no instrumento, criando verdadeiros fragmentos escalares (…). Por assim ser, optei pela denominação melódica percussiva porque ela sintetiza particularidades sonoras que identificam as entonações tímbricas dos modos de articular o som nesses instrumentos populares da nossa rítmica, ensejando, através dos símbolos da notação musical, a organização de uma metodologia que norteará a escrita e, consequentemente, a leitura e o aprendizado dessa percussão em condições iguais a de qualquer instrumento (D`ANUNCIAÇÃO, 2008, p. 8).

Hoje, o conceito melódica percussiva é entendido por especialistas como um avanço sem precedentes no estudo dos instrumentos de percussão típicos da música brasileira. Dentre as ideias que compõem este conceito, duas delas se mostraram especialmente úteis e pertinentes ao desenvolvimento do projeto Cuíca Expandida. A expressão “entonações tímbricas”, mencionada nas citações acima, é tomada aqui como uma dessas ideias de importância central, correspondendo à variedade de emissões sonoras decorrentes do processo de extração de sons de toda a estrutura física da cuíca, tanto a partir de sua técnica tradicional de execução, quanto de técnicas não convencionais e também do processamento eletrônico dos sons. A segunda ideia de grande importância consiste no que D`Anunciação (2008) apresenta como “designação nominativa”:

Os instrumentos com som de altura indeterminada requerem nomenclaturas próprias para suas entonações tímbricas decorrentes dos princípios de execução de cada instrumento. São sonoridades conhecidas como: som preso, som solto, toque no aro, toque na borda, tapau, som com o polegar, toque com a mão aberta, dedos, estalo, toque com a base da mão, etc. Estas denominações podem variar devido ao regionalismo, porém, são autênticas, cabíveis e já ratificadas por uma prática convencional do aprendizado intuitivo. Representam a melódica percussiva da gama de instrumentos com uma realidade sonora natural e não devem ter a sua espontaneidade invadida por nomes artificialmente estranhos à sua propriedade. Por isso, é importante e imperativa a consciência de que não cabe para tais entonações tímbricas a adoção das nomenclaturas tonais Mi, Fá, Ré, Lá, etc. (D`AUNICIAÇÃO, 2008, p. 14).

Para o autor, portanto, é imprescindível que a representação dos elementos sonoros gerados por esses instrumentos ocorra dentro de um processo próprio de identidade. Em outras palavras, a designação nominativa estabelece identidade autônoma e específica para cada entonação tímbrica produzida em determinado instrumento, em conformidade com o seu modo de articulação sonora.

Trazendo estas referências conceituais de D`Anunciação (2008) ao contexto do projeto Cuíca Expandida, algumas adaptações se fizeram necessárias. A principal adaptação diz respeito ao fato do autor elaborar suas ideias pensando em diferentes instrumentos musicais (tamborim; surdo; reco-reco; agogô, tarol; ganzá; triângulo; zabumba; caxambu; berimbau; dentre outros), ao passo que o projeto Cuíca Expandida se concentra exclusivamente na cuíca, buscando explorar a potencialidade sonora de todo o objeto em que o instrumento se constitui. Sendo assim, uma das adaptações foi considerar cada componente da estrutura física da cuíca como um “instrumento” individualizado, ou seja, como uma fonte sonora específica, atribuindo, deliberadamente, as seguintes designações nominativas a cada uma delas:

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Visão externa de um modelo de cuíca atual
  • FUSTE – consiste na parte cilíndrica que representa o próprio corpo do instrumento. Em geral, o fuste da cuíca é de metal (aço inox, alumínio ou latão), mas pode ser feito também de outros materiais, como a madeira e o acrílico. Sua função é servir de caixa acústica, amplificando o som e contribuindo na qualidade do timbre.
  • MEMBRANA – consiste em uma pele de origem animal, preferencialmente de caprinos, distendida em uma das extremidades do fuste. A membrana é o componente objetivamente responsável pela emissão dos sons do instrumento.
  • ARQUILHO – consiste em um arco de madeira ou alumínio no qual a membrana é empachada para, então, ser distendida sobre o fuste.
  • HASTE – consiste em uma vareta de bambu, direcionada para o interior do fuste, e fixada no centro da membrana através de um nó. Sua função é servir como elemento fricativo que transmite vibrações para a membrana, fazendo com que esta emita os sons do instrumento.
  • ARO SUPERIOR – consiste em um círculo de metal cuja função é manter a membrana presa ao fuste, bem como comportar as balas que dão fixação aos tirantes.
  • BORDA – consiste na base do fuste, localizada em posição diametralmente oposta ao aro superior.
  • CINTA – consiste em um círculo de metal preso ao fuste, próximo à borda, cuja função é comportar as balas que auxiliam no posicionamento dos tirantes.
  • TIRANTE – consiste em uma haste de metal, ligada pelas pontas ao aro superior e à cinta, por meio das balas. Uma cuíca contém em média oito ou dez tirantes, distribuídos de modo equidistante ao redor do fuste.
  • PARAFUSO – consiste em espirais frisadas em uma das pontas de cada tirante, servindo para o ajuste das porcas no mecanismo de afinação. Sua função é sustentar a pressão que mantém a afinação da membrana.
  • PORCA – consiste em um pequeno objeto de metal, furado ao meio e tendo a parede do furo marcado com frisos em espiral, que se ajustam sobre os espirais do parafuso.
  • BALA – consiste em uma pequena peça de metal, em quantidade equivalente ao número de tirantes, cuja função é manter os tirantes fixos ao aro superior e apoiados na cinta. Sua função também é dar sustentação às porcas enquanto estas sustentam a afinação da membrana.

Outra importante adaptação em relação às referências teóricas de D`Anunciação (2008) refere-se ao fato do autor tratar apenas dos modos de articulação sonora tradicionalmente aplicados a cada instrumento abordado em seu trabalho, considerando também apenas as entonações tímbricas comumente extraídas dos mesmos. Diferente disso, o projeto Cuíca Expandida visa fazer uso tanto da técnica tradicional de execução da cuíca, buscando por sua sonoridade de costume, quanto de técnicas não convencionais, buscando sons incomuns ao instrumento, além do processamento de todos esses sons por meio de equipamentos eletrônicos, resultando numa variedade de modos de articulação sonora que busca ampliar a gama de material disponível para o processo composicional.

TÉCNICA TRADICIONAL DE EXECUÇÃO

A técnica tradicional de execução da cuíca consiste basicamente em duas ações realizadas por cada mão do instrumentista. Uma dessas ações é a fricção da haste em movimentos de vai e vem com o auxílio de um pano umedecido; a outra ação consiste em premir a membrana externamente, exercendo sobre ela diferentes níveis de pressão. A combinação dessas ações gera entonações tímbricas compreendidas em uma tessitura significativamente extensa, que pode ser manipulada de modo a gerar diferentes relações intervalares entre as notas produzidas. Para esta técnica foi atribuída a designação nominativa TRADIÇA.

TÉCNICAS DE EXECUÇÃO NÃO CONVENCIONAIS

Quanto às técnicas de execução não-convencionais, estas consistem em modos de articulação sonora que fogem completamente à normalidade da cuíca. Justamente por se tratar de algo incomum à cuíca, as técnicas de execução não-convencionais resultaram de um processo experimentalcom o objetivo de descobrir e determinar as técnicas cabíveis a cada fonte sonora, visando extrair delas a maior variedade possível de entonações tímbricas.

Tendo em vista que a técnica de execução tradicional da cuíca não envolve a utilização de baquetas, as técnicas de execução não-convencionais foram desenvolvidasà regrada exclusiva utilização de objetos que já façam parte dos procedimentos usuais à cuíca, partindo da possibilidade das próprias mãos do instrumentista exercerem a função de baquetas. Assim, considerando as diferentes partes da anatomia das mãos, bem como sua variedade de ações motoras, foram estabelecidas as seguintes técnicas de execução:

  • CHAPA – mãos com os dedos unidos e em riste, em posição de tapa.
  • UNHA – mãos em posição de garra, com os dedos separados e articulados de modo que apenas as unhas atinjam a fonte sonora.
  • DEDO – mãos em posição semelhante à execução de um piano, articulando os dedos de modo que apenas as pontas atinjam a fonte sonora (sem o contato das unhas).
  • POLEGAR – mãos em posição relaxada, de modo que apenas os polegares atinjam a fonte sonora.

Além da exploração anatômica e motora das mãos para a criação das técnicas de execução não convencionais, outro elemento (já usual no universo da cuíca) que também se mostrou como uma alternativa à função de baqueta foi a chave de afinação, à qual recebeu a designação nominativa CHAVE.

Cabe observar, por fim, que o processo de investigação sobre possíveis técnicas de execução não convencionais continuará buscando por novas alternativas, visando principalmente ampliar a variedade de entonações tímbricas.